Zona limítrofe de Lisboa numa tarde muito quente, Lucas procurava no lixo qualquer coisa que pudesse vender, era tóxico dependente de heroína a alguns anos a esta parte. Fartou-se de remexer no lixo e nada não conseguia encontrar um objeto que conseguisse vender no sucateiro. E já sentia a ressaca a percorrer-lhe o corpo e as dores nos rins eram insuportáveis. Decidiu parar um pouco e ir ao café beber uma cerveja porque a ressaca não ficava tão forte. Entrou num café que conhecia, foi ao balcão e pediu uma cerveja.
Lucas tinha trinta e quatro anos mas parecia mais velho ja só era pele e osso. Vestia umas calças de ganga todas encardidas e uma camisa castanha rota debaixo dos braços, drogavasse desde os vinte e picos anos e estava farto das ressacas queria sair da droga mas não sabia como. Reparou que numa das mesas estavam várias pessoas havia uma delas que se destacava, um homem dos seus cinquenta anos com um chapéu palhinha branco na cabeça, calças de ganga, camisa branca e botas castanhas,
Lucas gostava de ouvir as pessoas falar, pegou na cerveja e sentou-se numa mesa ao pé deles, começou então a ouvir a conversa concentrando-se nas suas palavras.
<O homem é um ser engraçado todos nós temos um lado positivo que é a nossa vida do outro lado, do monte está o nosso negativo, este negativo é o contrário daquilo que somos, se quisermos e for melhor para nós podemos tornarmo-nos no nosso negativo.
<Mas professor depois ficamos como fôssemos o negativo.>
Lucas percebeu que o homem era um professor.
<Boa pergunta Maria. Sim durante algum tempo mas depois se nos transformamos no nosso negativo este vai se transformar no nosso positivo. E a vida que tínhamos anteriormente vai se transformar no nosso negativo e vai viver para o outro lado do monte e vamos continuar a estar sempre nesta tensão entre sermos o positivo que por vezes se quer tornar no negativo e vise-versa.
<Professor podia dar um exemplo.>
<Sim Mateus posso com certeza. Imaginem que uma pessoa tem uma vida miserável fuma, drogasse e bebe muito tem emprego que lhe paga mal porque desistiu da faculdade. Do outro lado do monte temos o seu negativo não bebe não fuma não se droga fez o curso na faculdade todo certinho e é casado tem dois filhos. Com certeza que neste caso o positivo gostava de se tornar no seu negativo e ter um vida muito melhor. Mas isto foi só um exemplo.>
Lucas sentiu se um pouco triste porque foi aluno na faculdade e desistiu no segundo ano.
<Por outro lado muitas vezes o nosso negativo também poderá ser algo que não nos queremos tornar imaginem, o positivo não bebe em excesso não fuma e um pessoa certinha com certeza que não se quer tornar no seu negativo quer continuar a ser o positivo. No fundo esta filosofia pode ajudar as pessoas porque podem ter um noção clara do seu negativo principalmente se não gostarem da vida que tem e pensar nos prós e nos contras e o que resultará se quiserem mudar para o seu negativo acho que facilita um pouco as coisas se pensarmos que algures existe o nosso negativo e se quisemos podemos mudar de vida ou não depende de cada um de nós.
<Tem razão professor.>
Lucas ao mesmo tempo que bebia a cerveja pensou no seu negativo e imaginou uma pessoa que não se drogava não fumava, bebia com moderação casado com filhos que viajava pelo mundo todo contente e ele não conseguia sair daquela vida miserável. Prometeu a si mesmo que ia tornar-se no seu negativo custasse o que custasse. Mas não sabia como fazer … Bebeu a cerveja pagou-a no balcão saiu do café e dirigiu - se para a lixeira para procurar sucata estava um calor abrasador, Lucas já andava quase de rastos e sentia-se mal já na lixeira procurou por todo o lado sucata mas não encontrava nada de jeito para vender as suas penas começaram a tremer e já não tinha forças sentou se no meio do lixo a chorar.
<Ja não aguento mais …!>
Um silêncio total invadiu aquele espaço.
<Ninguém me ajuda. Deus ajuda-me! > De súbito Lucas começou a ouvir vozes levanto-se e viu umas pessoas que conhecia por aparecerem por ali a ajudar os sem abrigo, foi na sua direção viu então uma pessoa que conhecia a dona Madalena talvez lhe pudesse pedir ajuda.
<Olá Lucas.>
<Olá dona Madalena.>
Cumprimentaram - se com um aperto de mão.
<Como é que tu estás?>
<Estou bem quero sair da droga.>
<Estas sempre a disser isso.>
<Mas desta vez e verdade quero tornar-me no meu negativo.>
< O que?>
Lucas contou a história que tinha ouvido o professor contar.
<Bom se é a sério podes contar connosco podes ir para a clínica de reabilitação e começar o tratamento de desintoxicação.
<Esta bem aceito.>
Lucas foi no carro com a dona Madalena para a clínica de reabilitação, só pensava no seu negativo do outro lado do monte, a viver uma vida cheia e a viajar por todo lado com a sua mulher e filhos queria tornar se nessa pessoa por mais que lhe custasse.
Lucas sofreu muito mas consegui libertar se das drogas arranjou um emprego, casou tem dois filhos, e o seu positivo passou para o outro lado do monte tornando depois no seu negativo e Lucas não mais quis ouvir falar dele só se lembra do seu negativo, quando quer ficar muito longe da vida que tinha, gostava de agradecer ao professor pelos conhecimentos que lhe passou mas nunca mais o voltou a ver. Encarou aquela história que ouviu no café naquela tarde como uma porta de emergência pela qual resolveu sair e que lhe salvou a vida. Vive no campo rodeado de árvores, flores, pela sua família e é muito feliz.
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