segunda-feira, 24 de junho de 2019

Viagem à Índia

A música das trombetas
As cores garridas dos estandartes,
O tempo soalheiro,
O povo num grande alarido
Todos queriam ver o Rei D. Manuel I

A procissão marcava o dia
Da partida para a Índia da armada
De Vasco da Gama...que jubilava
Em nome do monarca e da pátria sua amada.

As naus imponham respeito
No meio do Tejo fundeadas,
Pelo seu tamanho, pelo seu velame
E pelas suas quarenta bombardas

Ninguém ficava indiferente
Àqueles  magníficos navios
Que eram o S. Rafael, o S. Miguel, o S. Gabriel.
E o berrio, que de tão belos e vistosos
Havia quem não acreditasse nos seus olhos.

Muito atarefado,
O bispo benzia...
O Almirante e os marinheiros,
O Rei exultava, a procissão prosseguia,...

Lá em cima no Restelo
Os velhos abanavam a cabeça e sem medo falavam
E aquelas viagens, amiúde
Criticavam.

Porque quantos e quantos dos seus
No afã de fazer fortuna
Naquelas casca de  nós...
Perderam - se no mar e nunca mais
Ninguém ouviu a sua voz...

Mas...o ímpeto do achamento
Era imparável
E ninguém queria perder
Aquela viagem.

As tábuas de declinação do sol
Criadas por Abraão Ben Samuel Zacuto
Foram entregues ao capitão-mor pelo Rei antes da procissão
Para que este soubesse sempre no mar alto a sua localização

As naus recolheram
As suas  pesadas âncoras do rio fétido
Velas a todo o pano,
Os velhotes rezavam para que estes não
Tivessem ido ao engano.

No porto ouviam - se vivas a El Rei
O povo a gritar extasiado e latidos de alguns cães
Mas também choros e lamentos...
Eram as mães...

O destino era cabo verde
No meio do oceano ali estava
Ilhas áridas e desérticas
Que de verde nunca tiveram nada.

A costa africana depois de
Uma breve pausa,
Começaram a descer...
Bolinar,  era necessário
Para correntes e ventos contrários vencer.

Perto do cabo da boa esperança
Deram uma grande guinada
Para oeste,
E durante três meses ninguém soube
Para onde foi a armada.

Houve páginas
Do Roteiro atribuído a Álvaro Velho  que descrevia a viagem
Arrancadas, durante esses meses
Por aonde a esquadra andou? Ficou tudo
No segredo dos deuses.

Já no Índico a esquadra
Entrou de peito feito
Na costa  procuravam
Os padrões de El Rei  que Dias colocou
Nas suas margens, e que o tempo não apagou

Lá estavam eles orgulhosos e bem delineados
Escondidos pelos juncos
E pelo matagal,
Muitos choraram ao ver os símbolos e o brasão reluzente de Portugal.

Vasco da Gama não conhecia
Aqueles mares nem nenhum europeu
Se quisesse a sua viagem concluir
Ajuda teria de pedir ao fariseu 

Foram engaixados a força dois muçulmanos
Que sabiam o caminho  para a Índia,
Um fugiu porque falar com infiéis não queria
O outro revelou o que sabia

O muçulmano que ficou
Era bem intencionado,
Revelou o caminho para a Índia por tanto tempo
Desejado,... mas não deixou de ser pelos seus amaldiçoado.

Naquela viagem cada marinheiro
Tinha que saber muito bem o que fazia,
Para evitar, as doenças, as lutas de facas
E a sodomia.

A viagem foi custosa
As mares e correntes eram difíceis de ultrapassar
E havia também os que lhes faziam guerra
Só para complicar.

Finalmente a esquadra fundeou ao largo de Calcute na Índia
O Samorim foi confrontado com a vontade do Rei de Portugal de ali
Querer fazer negócio
Por essa razão não houve tempo para a diversão e para o ócio

Foram trazidos presentes
Que o Samorim desprezou...
Mas que eram uma maravilha,
Contas, tecidos coloridos e azeite, dentro de uma vasilha

O líder dos indianos
Recebeu cartas de Vasco da Gama do Rei de Portugal
Para o monarca ali fazer negócio, o que aceitou contrafeito
E o negócio estava feito.

Estava aberta a grande porta das especiarias
Que muitas riquezas havia de dar
A quem quisesse,
Uma viagem tão grande e atribulada arriscar.

A viagem de regresso foi muito difícil
Muitos marinheiros pereceram por não
Haver a bordo laranjas e limões
E por o capitão-mor desconhecer o ritmo das monções

Em Lisboa a armada debilitada
E exaurida de homens, foi recebida em jubilo e com euforia,
O Rei exultou com o sucesso da viagem e muito contente
Promoveu Vasco da Gama a Almirante. 












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