A história do fidalgo Lírio de água e fátuo e da sua amada Florinda Deslembrada
Um fidalgo vagueia pelo campo florido levando na mão
as rédeas do seu alazão, um lindo cavalo branco.
Está vestido de casaco encarnado, colete, camisa branca,
laço preto no cabelo, e calça botas pretas de cano alto.
<Desci do cavalo
Em prantos …
Olhei para todo o lado
Mas não te vi
Oh a dor d’ alma que senti naquele momento.>
<Procurei te por todo o lado
No meio da floresta e das flores,
No caminho que costumavas
Usar pela manhã mas foi tudo em vão.>
<Encontrei uma velhinha que me disse
O que procuras aqui?
Tão longe da tua casa?
Oh estou mal de amores respondi.>
<A minha amada não apareceu
Aqui junto ao laranjal …
Deve se ter esquecido não sei
Nestes reguengos d’ El Rei
Nestas terras de Portugal não a encontro não sei o que fazer.>
<Oh fidalgo …
Que desassossego o teu
Vi a mulher que referes no outro lado do monte …
Descalça descia o trilho
Colhendo figos por onde passava
Trincava dióspiros docemente
Rindo-se timidamente … parecia estar muito feliz, exultante e contente …>
<Mas como pode estar
Contente… se não está aqui comigo?
Oh mas estava acompanhada?
Vou buscar a espada e vingar
A minha honra tão ofendida que está.>
<Deixa te estar quieto não sejas tonto
A tua amada apenas quer estar só não
Estava acompanhada … não senhor
Deixa estar a tua espada onde está
Que o teu amor vai aparecer quando menos esperares.>
<Falas verdade?
És adivinha?>
<Não mas se ela te ama
Voltará para ti.>
<Ah por essa razão
Vou aguardar então
Neste lindo sítio,
Tão belo quanto …
A minha afeição que em breve estará junto ao meu coração
Ai que saudades tenho dela.>
<Bom vou andando vou amanhar as terras … não fiques aqui muito tempo
Se ela não vier entretanto …não fiques aqui não fiques …
No meio dos teus pensamentos …
Vai dormir a sesta fidalgo e descansa a tua alma ….>
<Não, não velhinha fico por aqui
No caminho que a minha afeição faz todos os dias …tenho pão e vinho
Para comer e beber, vou esperar mais um pouco
Parece que já ouço a sua voz Cândida, pura e doce e sinto
O seu perfume de Jasmin a percorrer-me a alma.>
<Está bem faz como quiseres
Mas olha que está muito Sol
Que por estas paragens deixa o miolo mole
E depois para onde vais?>
<Não, não acredito nisso
Sou fidalgo sou cavaleiro d’ El Rei
Vou esperar pela minha amada
E depois vou levá-la na minha montada
Para o meu palácio …>
<Quem espera desespera
Ao menos
Vai atrás dela
Por aí fora …>
<Prefiro ficar aqui …
Junto a este
Pequeno lago …
Tão bonito>
Qual é o nome dela?>
<Florinda>
<E o seu?>
<Lírio de água e fátuo.>
E qual é a sua graça velhinha>
<Maria
Mas não sou
Velhinha ...
Ainda estou nova.>
<Aí que não lhe falte a paciência e as forças …
Para uma jornada tão grande
E se ela só vier amanhã pela madrugada?
Fica aqui no meio das feras e da geada.>
<Claro que sim
Pois então …
O meu coração está partido em dois
E anseia pela sua metade …
Para poder funcionar devidamente,
Mas porque também sente que é seu dever
Proteger a sua amada, não quero que se perca
No meio da verdura sem saber aonde está, não estaria
A altura do homem que sou…>
<Está bem seja lesto não fique
Aqui muito tempo ...
Está muito calor,
E o Sol está a pique ….>
<Sou um fidalgo que a tudo resiste
Vou ficar nestas paragens,
A sentir estas aragens ...
A fazer versos e a suspirar pelo minha amada.>
<Está bem fique com Deus
E que a Florinda volte prestes>
<Obrigado Maria …
Obrigado que assim seja.>
O fidalgo sem nada para fazer
Se não esperar pela Florinda resolveu ir
Para junto do lago olhou para
A sua imagem na água e ficou a divagar junto dela.
<Oh é a minha pessoa refletida na água
Que bela criatura sou …
Que lindos cabelos negros tenho
E os meus olhos azuis cor do céu …
São de provocar tremores nas donzelas mais ariscas e difíceis.
E que pele tão suave que pena a minha afeição não estar aqui
Ficava ainda mais apaixonada.>
<Ai amada que estás no outeiro
Que caminhos percorres sem mim?
És a flor mais importante
Do meu jardim …
Que fazes por aonde andas?
Faz-me falta ouvir a tua voz
Que saudoso estou da tua companhia.
Nem todas as flores do mundo juntas
Te podem retirar a coroa da mais bela
De todas …
Roubaste o meu coração
E a minha afeição por ti aumentou
Oh que bela contradição
Mas assim é …
O meu elogio é tão magro
A tua beleza é tão grande … que pareces ter sido retirada
Do meu pensamento a régua e esquadro.
Como é que adivinhaste qual era a minha noção de mulher perfeita?
Quem me dera estar nos teus braços e tu nos meus …
Quanto tempo irei esperar para voltar a colocar
A minha mão nos teu cabelos loiros, nos teus seios ...
E os meus lábios a tocarem os teus,
E …>
O fidalgo voltou a olhar para a sua imagem no lago … e deitou-se junto a ele.
<Sou tão belo …
Mas esta minha imagem no lago
Esta esplêndida não me sabia tão bonito
Oh aparece dileta não me deixas só
Existem outras mulheres por aí …
Quem é fiel a sua mulher é cruel para as outras … não!
Vou manter-me íntegro e probo em relação a minha amada ...
Aí o meu cavalo voltou para casa
Saiu espavorido … e agora?
Fico e não me vou embora
Oh alazão também tu me abandonas?
Minha estimada não me deixes só neste mundo tirano e cruel.>
O fidalgo esperou … esperou …
pela sua adorada como esta não regressava continuou a olhar para
a sua imagem refletida no lago, obcecado pelo seu rosto e pelos seu cabelos negros,
durante muito tempo e nunca mais foi visto.
Dizem naquela região que apareceu
uma nova planta na margem do lago que os habitantes nunca tinham visto
a que deram o nome de Lírios de água, em homenagem ao fidalgo.
As pessoas mais velhas dizem que este
se transformou em Lírio de água de tanto esperar `
Pela sua estimada paixão.
E as plantas coloridas que ali existiam um pouco por todo o lado,
deram o nome de flores em recordação da Florinda sua amada.