domingo, 26 de fevereiro de 2023

O covil do poeta

Um laranjal, um poço

Uma casa no meio das árvores 

Roupa estendida nas cordas

Uma casota de um cão.  

Mas o poeta não está dentro desse edifício

Está mais acima 

Noutra casa dissimulada 

Entre as árvores, as penas e a auto recriação. 

No meio das flores amarelo esverdeadas.

Chama - lhe o seu covil.

Poucos sabem que ele está lá

Poucos sabem que este existe 

Mas consegue - se ver o poeta ...   

Por uma fresta numa janela 

Escreve rompendo o papel 

Com a sua caneta.

Este prefere a cor azul à preta.

Só porque o azul é a cor dos poetas.

E lá estão no papel eletrónico à sua frente

As suas vivências, frustrações, ausências. 

A sua vontade que se recusa a submeter - se a ditames 

Que não os seus.

Ninguém consegue impedi - lo de sonhar

Porque é o seu alimento natural

E precisa tanto dele como do ar para respirar...

Uma pomba esvoaçou e poisou num poste

O céu azul continua belo 

Uma criança lambuçou - se toda 

Com um gelado de chocolate e caramelo

Mas está feliz.

O que haverá para lá do horizonte poético

Já conquistado por outros?

Outros horizontes,

À espera para serem decifrados.

Colocamos o pé na rua

Ouvem - se vozes, latidos de cães, pássaros aflitos  

Ecoando no espaço com os seus gritos

Sorrisos das crianças,  

Que nos dão esperança de dias melhores

Será que elas se riem para convencerem 

Os pais que apesar de tudo vale a pena lutar 

E que tudo vai ficar bem?  

Ou só se riem porque são crianças... 

Lá estamos nós na estrada a entrar para o carro

A ser observados, lidos, verificados

É bom não destoar dos outros

Mas o resto do tempo é nosso.

Entre muros, 

Podemos errar 

Escrever, decifrar o livro que estamos a ler e cantar

Levar algum tempo 

Para acertar no que estamos a fazer 

Rir, escutar, falar, o que realmente pensamos

Ver filmes cómicos, de aventuras, de ficção, ver séries e concursos 

Que pena passarem tão rápido ...

Mas quando saímos para a rua 

Lá estão os mesmo de sempre 

A tentar perceber quem somos 

Para onde vamos?

Se não destoarmos 

Se calhar é melhor para todos

Não damos pistas para nos questionarem

Assim somos só mais um

Que passamos por ali

Rumo ao nosso trabalho.  

Mas no nosso cantinho 

Todo o tempo é nosso 

É ai que vamos percebendo 

Qual o nosso caminho  

E construindo a nossa estrada 

Onde passamos alegremente ...

De mão dada ou sós, 

E uma armadura vai crescendo 

E o nosso sorriso vai sorrindo 

A cada conquista...

Forma - se um exoesqueleto

No nosso corpo, visível só para nós... 

Que nos protege da mal discência

E interpretações erróneas de quem somos,

E de olhares interrogativos 

Ninguém devia criticar alguém sem o conhecer.

E quando temos um contratempo

Que nos desmotiva,

Não significa que temos uma má existência

Tivemos só um mau dia.

Nunca podemos esquecer que depois 

Da tempestade vem a bonança 

E a nossa vida flui e avança.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O poema filósofo

Às vezes não sei de mim 

Nem sempre mas de vez enquanto 

Não sei de mim ...

Tenho de estar em algum lado mas onde?

Para a minha satisfação pessoal

Sei que é tudo uma questão mental

Que hei de ultrapassar com o tempo

Quando tento ser quem não sou 

Ou ausentar - me de mim  

Lá vem o muro entre a minha pessoa e o meu objetivo  

E percebo esse não é o meu muro,

Não vou saltar um obstáculo que não me pertence

Ou talvez seja preguiça ou falta de motivação 

Não ... não salto muros alheios.

E apercebo - me que não é por andarmos entre 

Os pássaros, quando eles 

Passeiam suavemente na areia 

À procura de alimento

Saltitando entre as poças de água 

Ao sabor do vento,

Que depois vamos voar com eles 

Não funciona assim ... não me torno num pássaro

Por contacto entre mim e essa espécie ... 

Cada um de nós escolhe o seu caminho 

O tempo, os anos vão passando 

Por labirintos que só nós conhecemos vamos calcorreando 

Quando damos conta transformamos - nos 

Em nós mesmos,

Qual armadura que ficou colada ao nosso corpo 

E já não sai ...  

E assim procurarmos ganhar as nossas batalhas.

Mesmo durante aquele frio invernal,

Quando só nos apetece ficar na cama.

E não pensar em nada

De muito substancial...

Mas existe qualquer coisa nas palavras 

Que formam vários pensamentos que me atrai 

Têm uma musica insondável 

Um forte piano qualquer 

Que faz lembrar aquela aragem matinal e campestre

Que nos sossega a alma e o corpo, 

E nos transmite bem estar.

À determinadas variáveis que se mantem constantes 

Na nossa vida ...

É a esses pontos de apoio que temos de agarrar.

São os nossos pontos cardeais 

Que apontam o caminho por onde 

Devemos ir …

Porque mesmo que lhes fechemos a porta 

Durante algum tempo

Eles andam por ai não sei como mas andam 

Sorriem, e se não lhes ligamos eles voltam 

Voltam sempre ... felizmente... 

Para quem lê poesia 

Os poemas são um descobrir de novos sentidos 

De questões complexas que procuram resposta 

De figuras de estilo que embelezam as palavras

As ditas e as que nunca serão escritas 

Procuramos então algo que nos diga respeito

Que nos encha a alma.

E nos preencha os dias...

Mas para o poeta é uma espécie de para raios 

Onde os seus pensamentos 

Amontoados e meio escondidos no seu cérebro

Procuram o seu lugar 

Para viver e respirar

No meio dos verbos, palavras, e frases ... 

Preenchendo o espaço onde só havia promessas 

De um poema adiado.    



 

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Poesia abstrata

Um carro resvala no monte 

O boneco de neve cai 

As palavras desfazem - se no papel   

Porque não à nada significativo 

Que as sustente …

Lá ao fundo mas cada vez mais 

Intensamente … umas botas da tropa 

Marcham para trás … para o lado  

E lá acabam por ir para a frente.

O carro,

O boneco de neve,

As palavras desfazem - se no papel …

Porque não à nada significativo 

Que as sustente …

Procuram um caminho 

Para darem as mãos e formar um sentido convincente 

Mas vão desistindo 

Lentamente …

As botas da tropa 

Ouvem - se cada vez mais intensamente 

Andam para o lado 

Para trás e lá acabam por ir

Em frente … 

A boca fechou o tigre 

Num palácio de mármore 

Este fugiu e deixou as suas riscas pretas 

E as suas pegadas na areia 

Quem nasce deixa sempre a sua impressão 

No tempo e no espaço.

Alguém pintou o luar com as riscas pretas 

Ficou tudo escuro e em silencio 

Só se ouvia um leve murmurar 

Das árvores a dançarem com o vento 

Numa valsa a três tempos,

Enquanto os lobos uivavam

Numa infrutífera sinfonia 

De lamentos …

Benditos os que abandonam tudo 

Num breve momento de ternura 

Mas depois regressam 

Num momento turbulento de loucura.

As riscas pretas perguntaram pelo tigre 

Mas o animal a pouco metros 

Sentou - se e ficou a observar 

Um arrozal em forma de espiral,

As riscas abraçaram o tigre 

Que reconheceu que só assim 

Ficava completo.

Mas de vez enquanto metia - se na água 

Para tentar despir as riscas 

Mas sabia que tinha nascido com uma missão 

Que não podia ignorar …

Quis regressar ao palácio 

Estava fechado ... ficou - se então 

Pelo condado das florestas, urzes e matagais …



P.S - É poesia abstrata está provado que quando a Arte não sabe por onde ir entra na forma abstrata. Por esgotamento da forma ou do conteúdo. ( segundo uma teoria que escrevi em tempos “ A teoria dos ciclos”). 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Diálogos ao estilo de Platão


 Nas longínquas montanhas da Grécia dois homens   reúnem - se para conversar. Um é mais novo na casa dos vinte o outro é de meia idade.   

D - discípulo 

M - mestre 

                                                                                  I


                                                        O Princípio da incerteza evolutiva 


D - Mestre Deus existe?

M - Porque  perguntas?

D - Porque nunca o vi.

M - É uma pergunta complicada mas tenho todo o prazer em te responder.

D - Então diga.

M - Existe Deus sim um Deus cósmico que criou o universo e nos deu a vida. Deus está em todo o lado.

D - Mas onde está a prova que tal entidade existe?

M - Bom existem várias provas o homem tem a noção do bem do mal se não já não existia humanidade, por outro lado, existe uma determinada ordem em tudo. quer  no planeta terra mas também no universo, senão era o caos total. Quando estás doente tomas medicamentos certo?

D - Claro…

M - E de onde vêem esses medicamentos?

D - Da farmácia.

M - Sim mas de onde se extrai princípio ativo?

D - Das plantas medicinais. 

M - É isso mesmo … logo o homem é imperfeito tem doenças e houve uma intimidade que criou o homem com todas as suas doenças mas também criou as plantas medicinais para as curar, logo tem de haver um ser superior que criou o homem e as plantas medicinais que permite aos seres humanos ter uma vida longa. 

D - Mas porque é que somos imperfeitos?

M - Para podermos evoluir … se fôssemos perfeitos não evoluíamos estávamos condenados à estagnação. Um tubarão virado ao contrário desmaia, é perfeito não mas se fôssemos todos perfeitos não havia evolução logo o homem não é perfeito nem os animais mas tende para a perfeição.  

D - Mas aonde está a prova científica que não somos perfeito mas tendemos para a perfeição?

M - No princípio da incerteza de Heisenberg que diz que não se pode determinar com exatidão a rota das partículas físicas conhecidas por átomos, que são as partículas mais pequenas de que é constituída a matéria porquê? Porque essas partículas tem de ser maleáveis o suficiente para se poderem combinar com outras se assim não fosse se e não se pudessem combinar com outras não havia evolução. O que permite a evolução é a combinação entre várias organismo mas estes tem de ser maleáveis o suficiente para permitirem novas combinações. 

D - Mas porque é que quando existem grandes catástrofes naturais Deus não intervém?

M - Na minha opinião porque Deus não é físico mas cósmico deu - nos todas as condições para termos uma vida longa. Um planeta com vastos recursos naturais um cérebro em constante evolução, as catástrofes naturais podem - se prever tem é que se apostar mais na ciência e estudar a melhor maneira de evitar essas mesmas catástrofes. No caso dos terramotos qual o sentido que faz construir prédios em zonas sísmicas sem perceber que a qualquer momento pode haver um sismo de grande intensidade?

D - Mas o que faz evoluir o nosso cérebro.

M - O conhecimento sem dúvida quanto mais lemos e pensamos mais o nosso cérebro evolui. Se queremos um dia colonizar o universo temos que viajar à velocidade da luz, não a podemos é ultrapassar segundo Einstein mas pelo menos podemos igualar, mas o nosso cérebro precisa evoluir muito mais para que um dia possamos cumprir o nosso destino que é colonizar outros planetas e manter viva a evolução das espécies.

D - Obrigado mestre.

M - Foi um prazer responder as tuas questões. 


domingo, 25 de dezembro de 2022

domingo, 18 de dezembro de 2022

Montanha azul

Rasgava a madrugada se pudesse 

Para estar contigo ...

Navegava o oceano 

Numa barcaça de antanho para te ouvir dizer o meu nome.

 

Gostava de ver - te florir no meu quintal 

Enquanto regava a tua boca com beijos  

Colhia poemas no meu jardim no meio das flores

E do arvoredo ... e satisfazia todos os teus desejos ...


Os mundos que nos separam estão prestes 

A ruir ... quando ficarmos frente a frente 

O teu sorriso apagará todas as minhas magoas 

As tuas caricias levarão para longe 

As montanhas que me esmagam ...

 

Um pássaro gigante de gelo e de fogo 

Libertará as nossas almas …

Que correram livres para se amarem 

Vencendo precipícios, ondas, marés e ventos fortes ... 


O tempo dos amantes 

Não é o tempo dos homens 

É mais lento,

Porque é feito para durar.


O sonho dos pássaros

Era voar ...

E conseguiram, 

O meu sonho é conquistar - te.

É mais fácil do que ganhar asas 

E voar ... logo o que tiver de acontecer acontecerá …

O amor não é uma equação matemática com um resultado previsível …

Por alguma razão os cupidos estão sempre a rir - se.


No amor devemos perdoar 

Quase tudo ...

Porque foi o amor que nos deu vida 

Logo é superior a nós.


Na poesia vale tudo 

O poema é o chocalhar da alma  

Dizemos o que queremos 

Mesmo o que não dizemos fica dito 

Será que este consegue condensar tudo num só grito?

E tudo o resto é a repetição 

Do que já foi escrito?

Só será assim se não tivemos o arrojo

De olhar por cima dos ombros dos gigantes 

E continuar a subir a montanha azul diligentemente 

Que se forma no inconsciente dos poetas 

E nos desafia ...

A percorre - la com os olhos da mente.


O poema é fruto de uma liberdade exógena acorrentada a nossa alma 

Que vem do interior ...

Mas não podemos esquecer 

Que o que liga tudo é o amor ... 


P. S - Quando o Walt Whitman 

         Libertou os versos 

         Aonde estavas?

         No meio das estrelas …

         Os poemas vieram ter comigo 

         E dançaram ao meu redor 

         Como pássaros de luz e de som 

         Som celestial …

    


 

 


 







terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Deambulações poéticas

 Subi a montanha pelo lado norte 

 O tempo estava bom …

 Lancei os búzios para ver se tinha sorte 

 Acredito que a ventura somos nós que a fazemos 

 Enquanto lutamos pelo que queremos. 


 Tento ler os meus pensamentos que se vão formando 

 No horizonte …

 Podia fazê-lo em casa mas gosto de estar no monte

 No meio das urzes, das flores e dos canaviais 

 Mesmo defronte do meu livre arbítrio …

 

 Da janela vislumbro o meu equilíbrio mental 

 Que por vezes me pergunta 

 Por onde ando …

 Em termos poéticos … tenho várias influências 

 Que passam imperceptíveis no meio rima e da métrica 

 mas estão lá …


 Aprendi a achar - me na solidão

  Só para depois me deixar surpreender 

  Pela multidão que habita dentro de mim 

  Ninguém é um só …  

   

   O vento uiva a chuva cai 

   Escrevo e seguro - me 

   Num fio muito fino …

   Que teci para me equilibrar feito de poesia 

   E do rimar das coisas que aparecem e desaparecem 

   Mas sempre fica alguma coisa desta dicotomia.


    Só não gosto de virar as pedras 

    À procura do que passou …

    Quem deixa o cavalo sossegado 

    Não apanha coices. 


     Desço a montanha

     Já cansado …

     Olho ao meu redor utilizando os meus sentidos 

     Gosto de olhar a natureza nos olhos 

     Se tiver bem comigo próprio é música para os meus ouvidos.


      Para desfrutar de algo 

      Temos de estar bem,

      Ou mesmo aquilo de que gostamos 

      Se vira contra nós e mostra - nos os dentes e rosna 

      É um desassossego …

      À que não nos deixar tentar quando sabemos que aquele caminho não é o nosso. 


       No teu mar

       Escolhes os ventos, as marés

       E as correntes …

       Que queres enfrentar …


       

      


Tento

Tento Tento escrever dias, noites e silêncios Procuro em mim algo que esclareça Quem sou … As flores do meu jardim Olham-me esperando algo n...