terça-feira, 9 de agosto de 2022

A condessa

Romance 


A Condessa 


Personagens 

 

A Condessa 

Manelito - Irmão da Condessa

Márcio - Marido de Cristina (detetive)

Cristina Maria - Sobrinha da Condessa  

Nuno Ribeiro - Marido da Maria Joaquina 

Maria Joaquina - Sobrinha da condessa 

Sousa - Prima da condessa 

Lurdes - Mulher do Sousa 

Melo - Homem de confiança da Condessa 

Dois caseiros - Pai e filho Rodrigues e Sandro

Uma governanta - Joana   

 Prólogo 

Uma propriedade brasonada no norte de Portugal na região do Douro, o casario está rodeado por vinhas, com a sua cor amarelo-esverdeado perto das casas um bando de gansos bancos, andam de um lado para o outro, procurando comida, grasnando quando alguém se aproxima da propriedade. O portão é encimado por um brasão de armas.  A condessa de D.… recebe a sua família para celebrar o seu aniversário. Veste de preto porque é viúva, a sua estatura é pequena, apoia - se numa bengala de mogno preto, os seus olhos castanhos escuros demonstram que ainda tem grande vivacidade. É uma grande observadora e uma mulher de negócios ativa e pragmática. Vários automóveis entram na propriedade são todas viaturas de alta cilindrada, saem dos carros quatro casais e um homem solteiro. Têm entre os quarenta e os cinquenta anos.

A condessa está sentada numa cadeira à janela, puxou o cortinado de cor branca rendilhado para o lado e observa as pessoas com um olhar clínico. Quando se apercebeu que já tinha visto tudo o que queria retirou a mão do cortinado tocou uma campainha que estava em cima de uma mesa e esperou que a governanta aparecesse.

A governanta era uma mulher na casa dos trinta anos vesti - se com escuras de preferência, neste caso usava, saia azul escura camisa branca, pullover castanho escuro e sapatos pretos de salto raso.

«Olá bom dia Condessa diga...»

«Peça à Maria Joaquina para vir aqui falar comigo se faz favor.»

«Está bem vou chama-la.»

«Mas dê-lhe dez minutos para a Maria descansar da viagem.»

«Está bem Sr. Condessa mais alguma coisa?»

«Não é só sim podes ir»

A governanta acenou com a cabeça que sim e saiu do escritório, fechando a porta atrás de si. Alguns minutos bateram à porta ouviram - se dois toques.

«Entre!»

«Posso tia.»

«Podes olá Maria Joaquina.»

«Olá tia.»

Trocaram dois beijos.

«Senta-te Maria.»

A Maria vestia um vestido de cor-de-rosa e calçava sapatos castanhos claros de salto alto, tinha cinquenta anos, mas parecia mais nova.

A sobrinha sentou - se e cruzou as pernas.

«Oh querida está tudo bem contigo.»

«Sim mais ou menos... vamos indo... »

«Os meninos?»

«Ficaram com os avôs.»

«E de resto?»

A Maria agarrou o anel com a mão esquerda e rodou de um lado para o outro parecendo estar nervosa.

«Ah... os negócios do meu marido.»

«O que é tem?»

«Faliram...foi o que ele me disse...» 

«Faliram...ele já declarou falência...»

«Não sei penso que sim.»

«À dividas?»

«Sim!»

«Quanto?

 «Um milhão de euros.»

«O quê, mas é muito dinheiro?»

«É um stand de automóveis.»

«Sim carros de alta cilindrada.»

«Mas o stand tem carros já venderem os carros para abater no empréstimo?»

«Não sei»

«Não sei? O assunto é grave e tudo não sabes nada.»

«Sou docente numa escola não percebo nada de negócios.»

«Qual o regime em que te casaste?»

«Separação de bens.»

«Total ou parcial?»

«Total.»

«Menos mal.»

«Ouve nem penses que vou pagar as dividas do teu marido.»

«Oh tia ajude-nos pelo amor de Deus.»

«Oh Maria o meu dinheiro está todo investido nas minhas empresas.»

«Podia vender as joias.»

«As joias que estão na família à mais de duzentos nem penses nisso.»

«Oh tia.»

«Desculpa, mas nem pensar...diz ao teu marido para vender os carros todos do stand  se ele quiser posso falar com os bancos para que lhe emprestem algum dinheiro... avalista não sou de ninguém se ele quiser a minha ajuda...vocês é que sabem não quero é escândalos ouviste.?»

«Fique descansada.»

«Porque isso afeta os negócios da família.»

«Está bem vou falar com o meu marido.»

«No escritório de advogados como estão as coisas?»

«Estão bem.»

«Muito bem podes sair vão para a salão já lá vou ter.»

A Maria saiu da sala e fechou a porta atrás de si.

 

No salão estavam todos presentes os quatro casais e um homem solteiro que era o irmão da Condessa tratado por todos por Manelito. Tinha um ligeiro deficit cognitivo, mas nada de muito acentuado. O salão estava ricamente mobilado por mobílias de mogno antigo, no chão estava um tapete persa, nas paredes estavam pinturas de antepassados da Condessa. No teto um enorme candelabro constituído por centenas de pedras de cristal iluminava aquele espaço.  

Numa mesa num canto do salão Márcio, Sousa, Nuno e Manelito jogam póquer a dinheiro.

As mulheres estão sentadas num sofá a falarem descontraidamente a Condessa sentada num cadeirão, apoiada na bengala, observava tudo à sua volta o seu olhar detém - se nos homens que estão jogar póquer.

Repara que Márcio está nervoso limpa com um lenço branco bordado de azul e amarelo o suor do rosto de forma constante, e já bebeu vários copos de whiskey. 

«Ai desculpem vou ter de ir ao WC não estou bem.»

«Ó Márcio, no meio de uma mão.»

«Desculpa Sousa tem de ser.»

«Não podes esperar um bocado.»

«Desculpa Nuno mas não.»

«Está bem se tem de ser.»

«Oh tio o que está ai a fazer o tio não percebe nada disso.»

«Não te preocupes Cristina é a feijões.»

«Não Manelito é a dinheiro.»

«Ah não sabia...»

«Oh pá vocês também.»

«Ele é que quis jogar.»

O Márcio não regressou em tempo útil por essa razão não houve "quórum" para se continuar a jogar póquer.

O tempo foi passando as conversas mantidas eram as conversas de salão mais usuais falavam sobre os filhos, os empregos e o estado do país. Entretanto a noite envolveu aquela terra com os seus longos braços. A Condessa e todos os convivas foram deitar - se. Durante a noite uma pessoa andava de um lado para o outro, Márcio ouviu o barulho e preocupado foi ver o que se passava abriu a porta da divisão e descobriu algo que todos já sabiam que Manelito era sonâmbulo. Era um fenómeno que durava pouco tempo, passeava pela sala, pela cozinha, e depois voltava para o quarto e deitava- se.     

«O que foi Márcio?» 

«O Manelito está a andar de um lado para o outro.»

«Oh ele é sonâmbulo anda por aí um pouco às voltas depois vai -se deitar não te preocupes.»  

«Está bem pronto não conhecia nenhum sonâmbulo só tinha ouvido falar.» 

«Vem te deitar.»

«Está bem.»

A noite passou sem mais aparentes sobressaltos, os hospedes acordaram com o grasnar dos gansos, reuniram - se todos na salão depois de passarem pelo WC. Acenderam a televisão e estivem a ver as notícias. Não conversaram muito por estarem ainda meio sonolentos. O Márcio já andava com um copo na mão.

«Já andas a beber?»

«Sim querida é por causa da ressaca.»

«Aí socorro, ... socorro.»

«O quê é?»  

«É a Condessa...»

«Aí meu Deus!»

«Levantaram - se todos em direção ao quarto da Condessa.»

Abriram a porta e a condessa estava sentada na cama a seu lado estava um porta-joias vazio.»

«O que aconteceu? Tia»

«As minhas joias desapareceram...» 

«O quê?»

«Ah alguém entro cá em casa.»

«Sim Cristina e levou - me a joias.»

«Ai meu Deus e agora?»

«O que aconteceu?»

«Roubaram as joias à tia.»

«Temos de chamar as autoridades.»

«Sim a tia é que sabe... o que é que fazemos?»

«Ninguém chama ninguém sem a minha autorização, seja a  vão para o salão já lá vão ter.»

«Está bem vamos.»

«Vamos... vamos.»

Os hospedes seguiram todos para o salão ainda incrédulos com o roubo as joias da condessa.

A condessa foi a ultima a entrar no salão vestia um vestido de cor preta e apoiava - se na bengala preta de mogno. Sentou - se no cadeirão e colocou a bengala no seu lado direito. 

«Olá a todos bom dia.»

«Olá tia.»

«Olá.»

«Bom dia.»

«Bom dia a todos.»

«Tenho a comunicar que as minhas joias desapareceram.»

«Pois já sabemos.»

«Valem um milhão de euros.»

«Estão no seguro tia?»

«Não! Não está queriam um fortuna por mês disse que não e não me arrependo. Estive a pensar não vou chamar as autoridades não quero escândalos, isso pode afetar - me os negócios... mas as joias vão ter de aparecer.»

«Bom se quiser posso ajudar na faculdade fiz uma cadeira sobre criminologia e li muitos livros de detetives Sherlock Holmes e isso...»

«Uma cadeira? Sherlock Holmes ...

«Sim do Conan Doyle.»

«Sei quem é ... e Márcio acha que consegue descobrir o ladrão e as joias ...»

«Sim penso que sim.»

«Bom vou dar três dias para descobrir o ladrão e as joias depois tenho de chamar as autoridades.

«Está bem aceito.»

«Mas o que tu percebes disso? 

«Percebo querida percebo ... bom vou dar uma volta pela propriedade à procura de pistas.»

 «Com licença.»

O Márcio levanta - se e sai do salão.

«As minhas joias de família só me faltava mais esta.»

«Vão aparecer tia esteja descansada não as colocou noutro sitio.»

«Não Maria Joaquina estavam no porta-joias, apetecia usar o colar de perolas neste dia e não estava lá nada nem um diamante para a amostra.»

«Ai valha me Deus.»

«Isto tem de ser tudo abafado...»

«Está bem Sousa já sabemos.»

O Márcio passou a casa a pente fino e foi descobrimento algumas "coisas" estranhas. Depois do almoço reuniu - se  no escritório  com a Condessa para lhe revelar o que tinha descoberto. 

A condessa sentou - se numa cadeira em frente a uma mesa e o Márcio à usa frente. Ao lado da janela estava um enorme cofre. Numa das paredes estavam livros grossos de direito, de capa dura e algumas enciclopédias. Uma janela daquela divisão deixava entrar os raios do Sol iluminando -o.  

«Então o que descobriu?»

«Muita coisa... muita coisa.»

«Antes disso tenho lhe a dizer que alguém andou aqui no escritório a mexer em tudo, ainda me abriu o cofre que fica aberto porque aqui a atrasado esqueci - me da combinação, e como não tem nada de valioso já nem sequer o fecho.

«Aaaah sim não tem nada importante lá dentro.»

«Não!»

«Diga lá então?...»

«Alguém partiu um vidro da cozinha.»

«Aaaah?»

«Sim é verdade.»

«E também cortou o fio que liga o alarme a este cofre.»

O Márcio apontou para o cofre.»

«O meu Deus bom mostre - me lá o vidro partido na cozinha.»

Ambos dirigiram - se para a cozinha. Esta era ampla com muito bem decorada ao fundo tinha uma porta que dava para o quintal, um dos vidros estavam partidos.  

«O que se passou aqui?»

«Alguém partiu o vidro.»

«Abra lá a porta.»

O Márcio abriu a porta. 

Os dois saíram para fora da cozinha.

«Mas os vidros estão por fora.»

«Cá fora?»

«Sim se alguém partiu o vidro por fora os vidros tinham que estar dentro da cozinha e estão do lado de fora.»

«...»

«Sim mas havia vidros por dentro coloquei alguns no lixo para ninguém se magoar.»

«Ah? Não toque em mais nenhuma prova sem me mostrar primeiro.»

«Está bem.»

«À descobri aqui algumas pegadas.»

«Aonde ao pé da porta da cozinha e junto à janela da cozinha.»

«Mas o que é curioso é que não ouvi os gansos grasnar, dormi mal tive insónias não os ouvi.»

«Mas porque é que não tem cães? São melhores cães de guarda.»

«Acha Márcio? Não os gansos são melhores, os romanos preferiam gansos a cães para guardar as suas casas, porque os gansos mesmo que não conheçam a pessoa grasnam sempre, os cães nem sempre ladram a quem conhecem, mas porque é que eles não grasnaram?»

«Não sei.»

«Para mim isso significa uma coisa muito clara.»

«O ladrão está entre nós.»

«Mas porque diz isso.»

«Depois digo agora continue a mostrar - me  o que já descobriu.»     

«Aonde é que está o fio cortado do cofre.»

Quando passaram pelo corredor estava cinco cartas meio dobradas no chão, de jogar no chão. Um valete de paus, um dez de paus, um nove de paus, um oito de paus e um sete de paus. 

«Mas que cartas são essas?»

«Não sei.»

«Então mas não joga póquer?»

«Ah»

«Bom depois pergunto lá dentro...»

«Estas cartas são um straight flush ...»

«O jogador ganha a mão?»

«Sim.»

«Estranho estarem no chão, acho isso muito estranho.»

«Dê - me as cartas.»

O Márcio apanhou as cartas e deu - as à Condessa.

Andaram mais um pouco e pararam  em frente à porta do escritório.

«Está a ver o ladrão cortou o fio que liga o alarme do cofre.

«Mas o fio está quase a tocar no teto como é que o ladrão conseguiu cortar o fio.

«Deve ter usado um escadote.»

«Então roubou - me as joias e tentou assaltar o cofre é isso?»

«Sim é... vamos ao salão.»  

O Márcio e a Condessa dirigiram - se para o salão .... já nessa divisão a Condessa passou a pente fino a lareira, as estantes, com os seus enormes cartapácios... os tapetes, o seu olhar passou pelas pinturas dos seus antepassados que lhe tinham deixado as joias ... e sentiu - se um pouco triste porque algumas dessas joias tinham - lhe pertencido. 

« Enfim houve aqui mexidas alguém andou aqui  a mexer existem coisas fora do lugar, por exemplo os elefantes que são pisa papéis, estão trocados. Alguns documentos em cima da lareira estavam de pé estão deitados.  Passaram - me a casa a pente fino para me roubarem ... »

«Não se preocupe Sr.ª. Condessa vamos apanhar o meliante.»

«Ai vamos, vamos garanto - lhe.»          

Lá fora as nuvens aos poucos acumulavam - se no céu a abóboda celeste em pouco tempo ficou carregada de nuvens negras. Uma grande chuvada inundou a propriedade só os gansos pareciam não se preocupar com a chuva.  

A Condessa voltou para o escritório para organizar alguns dos papeis do cofre e também para ver se faltava alguma coisa. Entretanto ouviu - se dois toques na porta.

«Sim?»

«Olá Joana o que é?»

«Condessa a maquina de lavar loiça avariou - se.»

«O quê? É nova!»

«Pois não sei não funciona .»

«Já vou ver o que se passa.»

«Está bem.»

«Precisa de alguma coisa?»

«Não Joana podes ir.»

 A Joana saiu e fechou a porta atrás de si.»

«Tenho de ir lá abaixo ver o quadro elétrico se calhar saltou algum fusível. A minha bengala? Está aqui? Bom deixa - me ir continue as investigações depois falamos.»

A condessa saiu do escritório vagarosamente mas em passo decidido, passou pelo corredor virou à direita desceu umas escadas, abriu uma porta e acendeu a luz dessa divisão, as paredes estavam pintadas de branco lá ao fundo havia uma pequena janela com barras verticais.  Andou cerca de quatro metros e lá estava um gigante quadro elétrico à sua frente do lado direito. 

«Está tudo bem ah um dos botões está para baixo é o da máquina de lavar estranho... isto nunca aconteceu ... bom vou ver se consigo por o botão para cima.»

A Condessa fez pressão no botão e este ficou para cima.

«Já está bom vou para o escritório.»

A Condessa foi em direção a porta e agarrou na maçaneta.

«Mas? Não abre.»

Fez várias tentativas para abrir a porta mas esta não abria.

«Oh meu Deus não abre socorro... sou claustrofóbica socorro.»

À medida que ia gritando a sua voz ia ficando mais fraca.

«Socorro, socorro ... vai - me dar uma coisa socorro.»

Usando a  bengala a Condessa batia na porta.

«Acudam... acudam... »

Entretanto alguém abriu a porta era um dos caseiros o Sandro a Condessa saiu da divisão.

«Ai meu Deus a porta estava fechada?»

«Sim estava fechada a sorte é que a chave estava na porta por fora.»

«Ai não me estou sentir bem.»

A Condessa sentiu - se a desfalecer o Sandro agarrou na Condessa ao colo e levou -a  para o seu quarto. As suas sobrinhas decidiram chamar o médico para saber o que se passava com a sua tia. 

O médico lá apareceu tinha cerca de cinquenta anos usava barba rasa, vestia fato cinzento sem gravata trazia na mão uma pequena mala preta. Estavam no quarto da Condessa as duas sobrinhas e o médico.

«O que tem a minha tia Dr. ?.»

«Foi apenas uma queda de tensão a Condessa tem de descansar alguns dias e vai ficar tudo bem.»

A Condessa abriu os olhos e fez que não com a cabeça.

«Tem de descansar tia ordens do médico.»

«Já estou melhor obrigado.»   

A noite inundou a propriedade a chuva continuava todos os hospedes foram deitar  - se. 

Num dos quartos de hospedes Márcio e Maria Cristina falam.

Estão ambos deitados na cama a Maria está de camisa de dormir branca, o Márcio de pijama azul. 

«Então já descobriste algum coisa?»

«Já!»

«Desconfias de quem?»

«Do Nuno está cheio de dívidas.»

«Pois acho que deve um milhão...»

«Tanto?» 

«Ouvi zuns ... zuns.»

«É muito ...»

«A tua tia vai - lhe emprestar o dinheiro?»

«Já ouvi dizer que não.»

Entretanto o Márcio aproximasse da Maria e beija - a no pescoço.

«Nem penses.»

«Só faço amor na minha casa.»

«Mas porquê?»

«Porque pode haver pessoas nas outras divisões a ouvir.»

«Ah?»

«Põem a base dos copos nos ouvidos a outra parte colocam junto das paredes para ampliar o som e ouvir.»

«Mas tu fazes pouco barulho.»

«O quê? E de quem é a culpa ... não me faças falar... »

O Márcio levantou - se da cama. 

«Onde é que vais?»

«Vou beber um copo.»

«O quê? Oh pá isto assim não dá ... vou divorciar - me.»

«Não vamos nada calma.»

«Oh pá estou farta... as pessoas estão a reparar que estás sempre a beber.»

«Os outros também bebem.»

O Márcio saiu do quarto e fechou a porta atrás de si.   

«Estou farta disto casei com um bêbado? Não estou a perceber... assim não dá não tenho sorte nenhuma com os homens...»  


 Noutro quarto Nuno e Maria Joaquina falam, estão deitados na enorme cama de casal.

«Falaste com a tua tia?»

«Sim.»

«Vai emprestar - me o dinheiro?»

«Oh pá ... não! Diz que para venderes os carros todos que têm em stock e que depois se quiseres fala com os bancos para te emprestarem o dinheiro em falta para pagares as dívidas. 

«Mas a tua Tia é rica bolas.»

«O querido não é ... diz que tem todo o dinheiro investido.»

«Isso é mentira!»

«Oh Nuno tu não chamas mentirosa à minha tia. A Condessa tem culpa que não percebas nada de negócios?.»

«Não claro que não...»

«Uma pessoa muito parecida comigo disse para não te meteres nisso estávamos bem e agora estamos ... péssimos.»

«Isto resolve - se não te preocupes.»

«Então despacha lá isso... vende os carros pede o empréstimo a minha tia ajuda - te.»

«Se calhar é mesmo por ai que tenho de resolver isto.»

«Estás a ficar esperto vê - lá isso,  quero viver os meus sonhos  e não viver  pesadelos».

«Está bem tens razão.»

Noutro quarto o Sousa e a Dulce dormem o sono dos justos, ambos em posição fetal, ele ronca a mulher não. 

Pela janela do quarto percebesse que a chuva parou o vento uiva, a luz de um candeeiro ilumina  a propriedade, ouvem - se cigarras e grilos e o distante som emitido por um mocho.    

Pela manhã a Joana bate na porta da Condessa.

«Sim?»

A Joana abriu a porta e entrou. 

«Bom dia.»

«Bom dia Condessa.»

«Precisa de alguma coisa?»

«Neste momento peço - te que me tragas o pequeno almoço aqui à cama quero descansar mais um bocado, trás só as torradas e sumo de laranja.»

«Está bem vou providenciar.»

«Estamos a falar muito bem.»

« Nasci em Guimarães lá somos muito sofisticados.»

«Muito me contas.»

«Bom vou buscar o pequeno almoço.»

«Vai lá.»

A Joana saiu e quando ia fechar a porta alguma coisa chamou a sua atenção, baixou -se e apanhou algo do chão.

«Olha é um botão de punho.»

«Dá cá.»

«Será que é do ladrão das minhas joias.»

«Se calhar é.»

«Obrigado Joana põe em cima da mesa de cabeceira já o vejo melhor.»

«Está bem.»

A Joana colocou o botão de punho em cima da mesa de cabeceira e saiu. 

A Condessa ficou a olhar para o botão de punho. 

Os hospedes depois de passarem pela casa de banho dirigiram -se todos para o salão aonde o Márcio tinha uma declaração a fazer. Quando todos já estavam sentados no sofá ou em cadeiras e a condessa sentada no cadeirão  o Márcio  pediu a palavra.

«Diga o que tem a dizer Márcio o palco é seu.» Afirmou a condessa.

«Bom fiquei encarregue de descobrir qual o ladrão das joias incumbência que me foi dada pela Sr.ª Condessa de D... tenho então que vos dizer que descobri o ladrão não é mais nem menos que ... »

«Sherlock Holmes... Sherlock Holmes...» «Afirmou o Manelito todo contente e aos saltos.

«Foi o Manelito.»

«O quê? o Manelito.»

«Sim.»

«Não fiz nada que conversa é esta?»

Dentro de um saco o Márcio retirou as joias e mostrou - as ao seu público.

«Ai mas como é que possível.»

«O Manelito.»

«Ah não me lembro de  nada ... se soubesse tinha fugido com as joias não me lembro de nada.»

«Ó Manelito menos... não, não foi nada ele.»

«Calma Joaquina foi ele  mas como sabem o Manelito é sonâmbulo e fez aquilo que fez num estado de sonambulismo, por essa razão não se lembra de nada e como sabem é imputável devido à sua condição clinica. Resumindo ele levantou - se da cama passeou pelo corredor entrou no quarto da Condessa e retirou as joias do porta-joias e coloca - as num saco  e voltou para o seu quarto colocou - as então dentro de saco com joias no armário e deitou - se foi lá que as encontrei.»

«Mostre - me cá as joias.»

O Márcio entregou as joias à Condessa que contou as joias.

«Muito bem vamos fazer um pequeno intervalo já voltamos preciso de descansar um bocado é muita emoção.»  

A Condessa regressou ao seu quatro e levou o saco com as joias na companhia  da Joana entraram  no quarto a Condessa sentou - se na cama e despachou  as joias em cima da cama.

 «Logo vi falta aqui um anel com brasão que o meu Pai costumava usar.»

«...»

«Ainda não sei quem é o ladrão mas  o meu Manelito não é tenho a certeza um sonâmbulo não anda a cortar fios nem a desligar fusíveis... ah espera ai ò Joana vais aos quartos dos hospedes vê - lá se encontras alguma camisa nos armários ao qual lhe falte um botão de punho igual a este.»

A Joana agarrou no botão de punho que estava em cima da mesa de cabeceira olhou para ele e voltou a coloca - lo no sitio.

«Está bem vou procura - lo saiu e fechou a porta atrás de si.»

A Condessa agarrou no smartphone que tinha em cima da mesa. E fez uma chamada que foi prontamente atendida. 

«Olá Melo tudo bem? Por aqui? Menos mal mas cá estamos ... não está tudo controlado não te preocupes ... queria que me investigasses uma  pessoa ... 

A governanta regressou uma hora depois.

«Entrão descobriste alguma coisa.»

«Sim duas camisas as quais lhes faltam um botão de punho igual  aquele.»

«Duas?»

«Uma no quarto do Márcio o outro no quarto do Nuno.»

«Oh pá que chatice um deles foi mas qual?»

«Tenho aqui umas cartas que formam um straith flash ou lá o que é que descobrimos no chão do corredor.

A Condessa retirou as cartas de dentro da mesa de cabeceira. 

 Mas estão ligeiramente dobradas sabes porquê?»

«Ai que engraçado a Sr.ª Condessa não sabe.»

«Ó Joana diz lá o porque é que as cartas estão dobradas, olha que isto é um assunto sério.»

«Não sabe ... não sabe...

«Ó rapariga diz lá.»

«São cartas de batoteiro.

«Ah o que estás a dizer.»

«Sim e estão dobradas para caberem na manga como o braço é ligeiramente redondo, os batoteiros  dobram as cartas para estas caberem na manga e ficarem escondidas. A Sr.ª Condessa nunca ouviu a expressão ter "cartas na manga".» 

«Claro que já ouvi ... espera ai na unica vez que eles estiveram a jogar póquer ouve um jogador que estava a beber muito e que se levantou nervoso e saiu, e não regressou mais ao jogo, queres ver que foi quando se apercebeu que não tinha as cartas.»  

«Quem foi? Quem era?... »

«Hum... amanhã antes de os hospedes se levantarem tens de me fazer um favor... »

«Qual favor...»

Na manhã seguinte a Governanta bateu em todas as portas dos quartos.

«Toca a levantar a Condessa pediu para irem todos para a sala de estar,  vai haver uma reunião,  por outro lado, pediu - me para vasculhar  todos os quartos de alto abaixo à procura do anel que falta aparecer ... toca a levantar.»

«Mas isso já não estava já resolvido.»

«Sousa levanta - te lá.»

«Sabes que tenho mau acordar ...»

«À muito que não fazemos aquilo que tu sabes.»

A Lurdes ficou a olhar para o marido com olhar muito sério.

«Agora é dizes meu parvo... vamos lá ver o que a Condessa nos quer.»

«As joias outra vez... »

«Não sei anda lá.»

Os hospedes dirigiram - se todos para a sala de jantar. Tinha uma enorme mesa preta de mogno no meio e cadeiras ricamente decoradas também na mesma madeira preciosa. As paredes eram brancas. Ricamente decoradas com pinturas do século XVII e XVIII era sobretudo pinturas italianas.  

«O que é será agora roubaram a loiça à velhota.»

«Ó Sousa estás tu vê - lá.»

«Estou a brincar ...»

«Ó mana se a tia ouve ...»

«Ele cria festa não lhe dei... está armado em parvo ...»

«O Lurdes cala - te lá.»

«Também com essa barriga ...»

«Oh pá ó Lourdes olha que me vou embora para o Porto.»

«Vais ...vais ...»

«Querias festa Sousa ...»

«Oh Nuno tem dó ... já à muito tempo que não .... »

«Oh Sousa olha que te meto um processo... está armado em D. João da Moita não me faças falar.»

«Estou a brincar uma pessoa tem de brincar ou dá em doido.»

«Estás muito brincalhão.»

«Gostava de ter sido humorista.»

«Tens cá uma jeiteira.» 

«Eh lá ò Márcio já de copo na mau...»

«É sumo e ...»

«É sumo é ...»

A Condessa entrou na sala trazia o colar de pérolas ao pescoço. Foi para o fundo da  sala.

«Sentem - se nessa ponta se faz favor.»

Todos presentes naquela sala sentaram - se  na ponta da mesa. 

«Joana chama os caseiros para aqui.»

A governanta saiu e pouco depois entraram os três, governanta, Sandro e Rodrigues ficaram de pé no fundo da sala.

«Muito bem como sabem a maior parte das joias foram devolvidas, falta um anel  com Brazão que pertenceu ao meu pai. O ladrão está nesta sala. E como é que o consegui descobrir?

A Condessa retirou as cinco cartas do bolso do vestido. 

«Por estas cartas que ele deixou cair no corredor da casa.»

«Mas quem é tia senão parece que somos todos culpados.»

«Muito bem o ladrão é o Márcio.»

«Aaaah.»

«Será possível.»

«Nunca me passou pela cabeça.»

«O quê? Mas entreguei as joias e ...»

«Falta uma que é a mais importante é valiosa que é o anel do meu Pai.»

«Não tenho nada a haver com isso.»

«Oiça Márcio estava a jogar póquer no primeiro dia que vocês vieram cá, queria fazer batota quando percebeu que não tinha as cartas na manga levantou - se para as procurar, passou por cima delas no corredor e não as viu como não as encontrou em lado nenhum já não voltou para o jogo. O Márcio dobrou as cartas para estas caberem entre a manga e o braço por essa razão estavam dobradas.  Depois só fez disparates, partiu o vidro da cozinha de dentro para fora, ao desligar fusível do cofre enganou - se e desligou a máquina de lavar, deixou cair um botão de punho no meu quarto. Tudo porque passou o tempo todo a beber em excesso.  

«Não não é verdade.»

«Márcio coloque o anel em cima da mesa ao pé de mim, e pode ir em paz de outra maneira chamo as autoridades sei que tem o anel consigo. Quer que mande o caseiro tirar - lho.»

O Márcio olhou para os dois caseiros, dois homens bastantes corpulentos a sua altura passava o metro e oitenta. Este bebeu o whiskey de um trago, tirou o anel do bolso e deu várias passos em direção à Condessa colocando o anel em cima da mesa.»

«Que vergonha meu Deus.»

«Coitado...» 

«As pessoas são capazes de tudo.»

«Que vergonha...»

O Márcio não sabia onde se meter. 

«É tudo?»

«É tudo ... nunca mais volte a falar comigo ... e está proibido de entrar na minha propriedade, não me posso esquecer que me fechou na arrecadação sabe se para quê? Acusou o Nuno depois o Manelito do roubo das joias quando era você o meliante e isso é falta de caracter.»  

O Márcio dirigiu - se depois para a porta da sala sem olhar para os outros hospedes.

«Rodrigues e Sandro acompanhem o senhor ao carro. A Maria Joaquina fica comigo temos de falar.

«Está bem tia.»

 «Do fundo do coração espero que Deus o ajude.»

Durante alguns minutos ninguém falou, alguns dos hospedes estavam tristes outros abanavam a cabeça.

Entretanto os hospedes arrumaram as malas despediram - se da Condessa e foram andando para as suas viaturas.   


O Sousa e a Maria Cristina entram no seu carro. 

«Ai que vergonha.»

«O que queres fazer é a vida.»

«As pessoas são capazes de tudo.»

«Não temos nada a haver com isto.»

«As nossas empresas trabalham com as empresas da Condessa.»

«Não digas não sabia...»

«Isto tem de ser tudo abafado.»

«Claro que sim.»

«A tua irmã tem de se divorciar desta pessoa telefona-lhe e explica-lhe a situação tem de por o divórcio em cima da mesa.»

«Pensas que a minha irmã não sabe já isso?»

«Não sei vê - lá.»

«Quero saber é como está a minha tia.»

A Maria Cristina agarrou no smartphone e fez a chamada para a sua tia.

«Ele nunca me enganou?»

«Cala - te lá vocês eram super amigos.»

«Não nem pouco mais ou menos.»

«Olá tia é a Cristina estava aqui a pensar não queres que fique aqui contigo?»

«Não? A minha irmã fica? Está bem podias, se faz favor, dar o telefone à Maria Cristina queria dar - lhe um lámiré.

«Obrigado tia as melhoras...»

«Olá mana grande bronca? Não estás com paciência para falar... pois imagino só uma questão, o divórcio está em cima da mesa certo? Ah pois tem de ser... que vergonha quem é que aquele idiota pensa que é? Pensa que nós somos todos parvos? Coitada da nossa tia... na idade dela? Olha nunca mais fales com ele trata tudo pelo advogado.»

«Boa tinha me esquecido disso.» «exclamou o Sousa.»

«Está bem trata disso se precisares de ajuda diz... podes contar comigo para tudo. Está bem tchau fica bem...»

«Pronto está resolvido a minha irmã vai - se divorciar.»

«Boa é assim mesmo tem de ser ... menos uma chatice... estava a pensar em beber um copo no caminho para casa.»

«Tu sabes que a minha pessoa não anda em carros com bêbados.»

«Aaaaah?»

«Não é lá é cabelo.»

«Oh pá ...»

«Vamos para casa bebes lá e se te esticares dormes no sofá.»

«Tu és terrível ...»

«Ah!Ah!Ah!... estou a brincar.

O Sousa colocou o carro a trabalhar carregando num botão e a viatura partiu em direção à cidade do Porto.

Os gansos continuaram a patrulhar a propriedade .... uma suave brisa desceu sobre a quinta as árvores abanaram com o vento, as nuvens dispersaram e revelaram o céu azul em toda a sua dimensão, alguns pássaros cruzaram o espaço ... com os seus gritos levando na boca comida para os filhos. A normalidade aos poucos foi chegando e passados alguns dias tudo não passou de um sonho mau que foi sendo esquecido com o passar do tempo. O divórcio entre Márcio e Maria Joaquina foi consumado num tribunal da cidade invicta, a Condessa de D ... recuperou a olhos vistos das agruras a que foi sujeita e continuou a gerir os negócios da velha nobreza nortenha.       


Epílogo 


A Maria Cristina está no quarto com a sua tia, a Condessa está deitada na cama.

«Sempre te vais divorciar?»

«Sim já andava a pensar nisto já algum tempo o Márcio tem problemas com o álcool e ...

«Pois ... ele também tem problemas com o jogo deve dinheiro a pessoas complicadas divorcia - te e depressa.

«Mas como é que a tia sabe? 

«Pedi ao Melo para o investigar e ele contou - me que o Márcio tem problemas com o álcool e dividas de jogo.

«Nunca me disse nada...oh tia mas como é que sabia que o Márcio tinha o anel no bolso?»

«Porque percebi que as cartas no chão só podiam ser dele, vi o teu marido a levantar - se da mesa do jogo muito nervoso, quando percebeu que não tinha as cartas na manga. A Condessa fez uma pausa.  Ele entregou as minhas joias mas ainda tinha o meu anel, pedi então à minha governanta para dizer quando vocês se estavam a levantar que a Joana ia procurar o anel nos quartos, a Condessa fez uma pausa. Percebi que o Márcio era uma pessoa nervosa e convenhamos alcoólico quando a Joana disse que ia procurar o anel no quarto esperava que o Márcio devido ao seu perfil psicológico colocasse a joia no único sitio onde pensava que a minha governanta jamais iria procurar...

«No bolso tia ...»

«É isso mesmo ... no bolso.»

«A minha tia é tão esperta... merece um beijinho.»

A Cristina abraçou a Condessa e deu - lhe um beijo no rosto.

«Obrigado Maria já estava a precisar.» 


Na antiga propriedade nortenha o Sol voltou a brilhar e as agruras voaram para longe ...


P.S - É possível que tenha de fazer algumas alterações.  



quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Safiricun

Safiricun 


Quando as águas se abriram 

Para que o profeta se pudesse salvar

O mundo olhou incrédulo 

E o bem venceu…

O homem saiu do chão

As árvores desceram das nuvens,

E povoaram a terra.

O pecado nasceu 

Num dia de lua nova

Entre promessas 

Futuras e de antanho.

O olhar verde da cobra 

Deixou um fruto 

No beiral da porta...

Quem comeu gostou.

O safiricun sobrevoou

O vento colocou - se 

No sotavento esperou 

Pelos pescoços que passavam entre as árvores

E deixou a sua marca.

O desejo misturou - se com o sangue

E nunca mais o largou 

Nem as vagas mais altas 

Cheias de espuma e energia 

Conseguiram impedir

O amor de florir…

Mesmo naquelas terras onde já ninguém esperava nada 

Uma criança nasceu...

Sorriu e pediu que a deixassem sonhar. 


P.S - Safiricun é uma entidade cuja natureza não se consegue definir é uma palavra inventada. 


Rebelde

Rebelde 


Andavas só no meio do mar 

E do vento …

No convés de um barco 

Que queria evitar que um qualquer farol

Te trouxesse para terra.


Das tuas causas foste o primeiro 

A soltar as amarras ...

E dizer que querias ser um 

Rebelde de ti próprio.


Só por falares grandes vagas soltaram - se 

Do oceano para te provocar 

Para fazer chacota

Do teu pensar do teu querer.


Sem refletir saltas - te para o desconhecido 

Os seus enormes dentes 

Que devoram mesmo os mais fortes não te 

Amedrontaram…


As pessoas aproximaram - se 

Para ver o que era...vestiste 

As tuas roupas novas 

E sorriste…


O teu exercito de vinte e duas letras 

Agarrou no teu braço

Sentiste o teu corpo a esvoaçar no espaço 

As pessoas olharam para o que escreveste …


Pensaste que …


Se te chamassem nomes… resolvias 

Se não te quisessem sobrevivias 

Se não te entendessem… não morrias 

Se te ignorassem… voltavas noutro dia…


Uma pessoa relatou 

Que te viu andando atarefado com uns papeis na mão

O vento só deixava ouvir as tuas

Palavras entrecortadas… acharam estranho estares a sorrir…


Articulon

Articulon 

Queres colocar travões no infinito 
Para  teres uma alma nova, 
Colocar as mãos nas galáxias 
E impedir o universo de se expandir. 
Num tom aflito 
Mas impetuoso pretendes acabar com todas 
As guerras com um só grito…
Queres navegar num mar de senhoras 
Num meio de uma tempestade…
Que arranca as pedras do seu sono 
E permite as árvores começaram a andar.
Pretendes vencer batalhas 
E queres que te devolvam as medalhas 
Em guerras onde não 
Participaste…
Queres entrar numa nave espacial 
Mexer em todos os botões 
Navegar pelo espaço sem nunca 
Teres saído do lugar.  
Escrever o que não foi escrito e qual maestro
Pintar, palavras,  num oceano gigante de emoções
Só com um gesto... sem arriscar mudar a cor do céu?
Mas isso é articulon... 

P.S - Articulon é  uma palavra que inventei e significa uma fantasia impossível ou quase impossível.
É poesia experimental na criatividade não se deve colocar grilhões temos de procurar novas possibilidades claro que podemos ser criticados, mas por vezes apetece - me explorar novos caminhos poéticos, de outra forma não evoluímos mas devemos, por outro lado,  dar pistas aos leitores quando a nosso poema é muito diferente do habitual, por exemplo, se não tivesse explicado o que significa Articulon as pessoas não percebiam o poema. Mas com o risco de me contradizer não se deve explicar o poema todo, porque existe uma coisa conhecida por micro história que é a possibilidade de qualquer obra de Arte ao longo do tempo gerar novos públicos novas interpretações logo o poeta apenas deve dar algumas pistas quando de outra forma era impossível para os leitores perceberam o poema mas não deve dar a explicação toda, devemos dar espaço a cada pessoa que lê o que escrevemos de descobrir as suas vivências naquilo que o poeta escreveu.  E gerar a sua exclusiva interpretação daquilo que leu.  


 


Quero


Quero


Quero misturar – me com o teu azul

Enquanto sou escarlate 

E transformar o nosso mundo 

Em amarelo imperial.

Quero subir à superfície contigo

E respirar oxigénio puro 

Pela boca da mente 

Numa só golfada...

Quero conquistar 

Todos os sois do universo 

Num só impulso criativo…

Cheio de glamour, cor e sapiência. 

E usar os infravermelhos de uma nave alienígena 

Para ver mais longe 

Enquanto seguro 

O teu corpo contra meu…

Vou procurar – me no teu ser…

Misturar chocolate com baunilha 

E adormecer…

Passaram por mim duas sombras 

Não eram as nossas 

Eram uivos de lobo 

Que desapareceram 

Ao raiar do dia. 


sexta-feira, 29 de julho de 2022

Férias

Olá caros leitores (as) do blogue Miguel Lopes prosa e poesia neste momento vou de férias durante duas semanas, agradeço desde já a vosso interesse em ler aquilo que vou escrevendo, daqui a alguns dias estarei de regresso obrigado a todos,

Beijos e abraços

Miguel Lopes

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Um dia especial

       

Um dia especial 


Personagens: Hugo, Mestre Pereira, Martins, Lourenço  


Numa manhã solarenga três amigos encontram – se 

Numa vila pesqueira para um dia de pesca no mar alto. 

Reúnem - se num pequeno bar 

Para prepararem a pescaria.  


«Trouxeram o material todo»

«Claro ò Martins estás a gozar?»

«Já não vínhamos aqui à quanto tempo»

«Não sei Lourenço para ai à vinte anos.»

Naquela vila o casario era na sua maior parte constituído por casas de madeira e só tinham um andar onde vivam algumas pessoas sobretudo idosos.

«Oh Martins já reparaste?»

«Em quê Lourenço?»

«Dantes,... no antigamente quando começamos a vir para aqui à vinte anos.»

«O que é que tem?»

«Quantos bares é que havia aqui? 

«Seis, sete .»

«E depois?»

«Agora só à um… oh pá é estranho não achas?»

«Pois já tinha reparado os mais novos vão se embora ficam os mais velhos que vão se reformando e os bares fecham... é a vida.»

«Parece que dantes havia aqui mais pessoas…»

«É como te digo aos mais novos vão se embora emigram o que é que queres fazer?»

«Pois enfim… mas onde é que está o homem?»

«Mas qual homem?»

«O Pereira pá...»

«Lá começa o Hugo e as suas pressas tem calma…»

«Não é isso temos que ir para o barco ou não?»    

«Temos vou telefonar ao Pereira ao Mestre Pereira é este o posto dele.»

«Ainda nos consegue levar ao sitio para pescarmos.»

«Consegue claro que consegue.»

«Telefona lá!»


O Lourenço agarrou no seu smartphone topo de gama foi aos contatos e  fez a chamada.


«Olá Mestre Pereira está tudo bem? Já aqui estamos prontos para a  pescaria. Estamos no bar na vila a beber um copo, diga - nos o nome do barco e nós vamos buscar as canas de pesca e os carretos e vamos ai ter consigo,... o Rei dos mares? Está bem dentro de meia hora estamos ai no cais.»

«Então podemos ir buscar o material e depois seguimos para o cais.»

«Qual é o nome do barco?»

«O Rei dos mares.»

«Grande nome vamos?»

«Vou beber mais uma?»

«A esta hora?»

«Sabes que bem que num barco devemos evitar os três F.»

«Fome, fadiga, frio… queres ensinar a missa ao padre queres ver.»   

«Tem calma com isso tu andas a beber muito.»

«É impressão tua.»

«Depois do divórcio ficaste diferente.»

«Não me falas nisso...»

«Está bem pronto.»

Os três amigos beberam mais uma cerveja e depois foram para os carros buscar o material para poderem pescar no mar alto. Dirigiram - se para  a marina e entraram no Porto e lá avistaram o "O Rei do mares".  Era um barco de pesca dos anos noventa, de 9 metros, motor Renault de 220 cavalos, cor banca com riscas azuis e registado para atividade marítima e turística. 

«Oh pá tem um aspeto antigo.»

«Calma Martins é uma maquina do caraças.»

«Deve ser deve...mas isto é seguro oh  Lourenço vamos para o mar alto.»

«É seguro estou - te dizer.»

«Está ali o  Pereira.»  

O Mestre Pereira era um homem de setenta anos, estatura mediana, cabelo grisalho curto, usava óculos de ver ao perto. Era mais de observar do que falar mas quando falava era assertivo. 

O Lourenço fez sinal se podiam subir a bordo.

O velho lobo do mar  abanou a cabeça que sim. 

Os três homens subiram a bordo

«Olá como estão sou o Pereira.»

«Olá Lourenço.»

«Hugo.»

«Martins.»

«Bem vindos estão preparados para a pescaria?»

«Sim estamos.»

«Sim.»

«O preço é aquele que combinamos?.»

«Sim claro.»

«Sempre quem ir ao tal banco onde costumavam pescar?»

«Sim são aquelas coordenadas que lhe enviei por email.»

«Ai à pouco peixe.»

«É um sitio especial para nós. »

«Vocês é que sabem.»

«Bom então vamos zarpar.»

«Vamos a isso.»

«Vamos...»

«Embora...»


O velho lobo do mar deu à chave e ouviu - se os motores a rugir e as hélices a girar.  O barco rodou para estibordo em direção ao mar. O navio navegava a uma velocidade de 4 nós deslizando suavemente de um lado para o outro. Durante duas horas aquilo que os três amigos viram foi algumas gaivotas, um bando de golfinhos roazes, a nadarem e a saltarem na proa do velho barco como se tivessem a competir com ele. Ao longe também viram um tubarão martelo reconheceram - o pela sua enorme e fina barbatana dorsal.

Entretanto o comandante parou os motores e lançou a ancora,  pelo rádio informou as autoridades da sua posição.


«Estamos no banco…» gritou.

«Ó pessoal chegamos vamos a isto.»

Os três foram buscar o equipamento, montaram as canas e os carretos e lançaram o isco ao mar.

«Podemos muito bem pescar um dourado, um atum, um badejo ou um merlim azul.»

«Um  merlim azul é que era.»

«Nunca se sabe Hugo é tudo uma questão de sorte.»

«Já tivemos quase a pescar um merlim azul  mas o desgraçado tanto saltou que a linha partiu - se...foi o Martins que o fisgou.»

«Lembro - me disso mas o fisgar não é tudo é preciso coloca - lo dentro do barco isso é que é importante.»

«Estão a falar de mim.»

«Estamos a conversar daquele merlim que deixaste fugir.»

«Não tinha o equipamento correto e tu sabes bem disso e a linha escolhida também não era a melhor.»

«Quando o bailarino não sabe dançar diz que o chão está torto…»

«Tu não sabes o que dizes!»

«Parem lá com isso olha o homem… não pescamos o merlim mas pescamos outros.»

Os três pescadores cada um com o seu boné na cabeça esperaram, esperaram e esperaram que algum peixe mordesse o isco. O barco abanava de um lado para o outro com a ondulação  que batia no navio, alguma da água entrava no barco mas era escoada pela bomba do porão. No horizonte só se via a  água do mar e o céu azul, uma acessional ave passava por cima da embarcação. Entretanto o calor foi aumentando chegando aos 43.º graus. 

«Oh pá ò Hugo já viste o calor que está? Passam só  alguns minutos do meio dia e é um calor que não se pode.

«Pois está!»

«É as alterações climáticas…»

«Acreditas nisso Martins.»

«Acredito Hugo claro que sim!»

«Isso é tanga.»

«O Hugo tem juízo está mais do que provado.»

«Não acredito!»

«Está bem tens a tua opinião mas para mim as alterações climáticas é um fenómeno verdadeiro e tem de ser resolvido. Já viste o calor que está!»

«Já vi já mas…é o tempo dele.»

«Ó pá tem juízo está mais do que provado temos de salvar o mundo para o nosso bem e das futuras gerações.»

«É verdade Hugo o mundo está a aquecer está provado, negar isso é a pior coisa que podemos fazer, temos é que o resolver.»

«Desculpa Lourenço mas sou cético a esse respeito não acredito.»

«Pronto está bem é a tua opinião.»

Os três homens continuaram a sua faina o tempo passava e nenhum peixe mordia, começaram a ficar fartos daquela pescaria.

«Cheguem aqui.»

Os três homens homens dirigiram - se para a proa. 

«Diz lá Hugo…»

«Mas o que é isto? Nenhum peixe pica não percebo… dantes era peixe por todo o lado e agora nada...será que estamos no sitio certo?»

«Sim já confirmei no GPS do smartphone as coordenadas são estas.»

«Então oh Lourenço onde é está o peixe?»

«Oh pá ò Hugo alterações climáticas já ouviste falar?»

«Mas o que é que isso tem haver?»

«Não sei explicar mas está relacionado.»

«Perguntamos ao Pereira talvez ele saiba.»

«Está bem Martins vamos perguntar.»


Os três dirigiram - se à cabine do barco onde estava o Mestre Pereira sentado a ler um livro e perguntaram - lhe o que se passava com o peixe este levantou - se e poisou o livro numa mesa.


«Meus caros amigos neste banco não existe muito peixe por causa das alterações climáticas que aqueceram a água, grande parte dos peixes não suporta esta tipo de temperaturas e foi para outras paragens, por outro lado, temos também a questão da sobrepesca em que as pessoas pescam todo o pescado que lhe passam pela frente pequenos, grandes e o pescado não consegue recuperar e vai - se extinguindo, e cada vez à menos peixe e isto que neste momento vai acontecendo um pouco por todo o lado, um pouco por todo o mundo.»

Os três amigos voltaram para as canas de pesca, pensando que a pescaria não lhe ia trazer grandes proveitos, e assim aconteceu nenhum peixe picou deixando os companheiros de pescaria desconsolados  e já quase ao por do Sol o barco regressou ao porto, com os três amigos estupefatos mas também preocupados nunca tinham visto uma coisa assim nenhum peixe mordeu o anzol era algo inaudito. Pagaram ao comandante do navio e  despediram - se deste. Carregaram o equipamento de regresso aos carros. 

«Então Hugo já acreditas nas alterações climáticas?»

«Sim Lourenço não sabia que esta questão era assim tão grave fiquei esclarecido e estupefato temos de resolver isto.»

«É realmente uma coisa tremenda não podemos viver sem peixe a humanidade tem de se unir para resolver isto e rápido»

«Tens toda a razão Martins nunca pensei que não conseguíssemos pescar nada, é mau muito mau mas penso porque sou um otimista que tudo isto se vai resolver.»

«Que Deus te oiça Lourenço que Deus te oiça.»

Os três amigos entraram nos carros e voltaram para a sua vida citadina. 



  





Tento

Tento Tento escrever dias, noites e silêncios Procuro em mim algo que esclareça Quem sou … As flores do meu jardim Olham-me esperando algo n...