quarta-feira, 6 de maio de 2026

Monte das intempéries

Monte das intempéries 


Vi-te a subir o velho monte
Enquanto o vestuto monte subia contigo ...
De lenço na cabeça
Ninguém te parava
Em relação a chuva
Por vezes forte ...
Não lhe ligavas nada ...
Porque mesmo assim era suportável.

E a águia passava
Lá em cima? Passava ...
E o mocho no meio
Do bosque escondido entre
As folhas piava … piava só para te disser
Que lá estava …

Só querias concretizar o teu objetivo
Ler as letras miudinhas
E as parangonas dos jornais 
Que de vez enquanto 
Os teus pais traziam, para embrulhar
Produtos comprados nas lojas do povo 
Mas que não conseguias entender 
Porque não sabias ler.

Às vezes o vento vinha
Furioso e altivo 
Para testar a tua vontade …
O teu equilíbrio
Mas por mais forte que fosse
Continuavas firme no teu caminho.

E a águia passava
Lá em cima? Passava ...
E o mocho no meio
Do bosque escondido entre
As folhas piava … piava só para te disser
Que lá estava …

Nem todos percebiam o teu querer
Para que querias
Aprender a ler?
E as terras ficavam por amanhar?
E tu respondias 
A mãe natureza por vezes 
Também precisa de descansar.

Por essa razão
Só podias ir juntar as letras
Nas intempéries com o mau tempo 
Porque não podias trabalhar nas terras 
De lenço na cabeça
Pela estrada de areia batida fora subias 
Os quatro quilómetros porque querias aprender,
Aquilo que o teu entendimento
Entendia que tinha de ser ... 

E a águia passava
Lá em cima? Passava ...
E o mocho no meio
Do bosque escondido entre
As folhas piava … piava só para te disser
Que lá estava …

As senhoras da nobreza que ensinavam
A ler e a contar 
Recebiam-te sempre bem
E preocupavam - se contigo por vires à chuva pela estrada …
E tu respondias está tudo bem já estou habituada.

Ficavas numa sala ricamente decorada
Aonde havia um retábulo, uma custódia e quadros nas paredes 
E aos poucos … com a leitura e os ensinamentos 
Sentada junto a uma mesa com outras adolescentes 
Iam todas ficando cada vez mais sapientes.

Alegre e bem disposta.
Os oito quilómetros não faziam diferença …
Porque a tua crença
Em aprender era mais forte
Mesmo cansada com o corpo molhado e moído 
Chegavas feliz a casa.
Por o muito que conseguias aprender 
Em cada viagem.

E algum tempo depois
De subir o velho monte 
Enquanto o vestuto monte subia contigo 
As letras começaram a fazer sentido
E já conseguias ler não sem alguma comoção 
Jornais, revistas e livros ...
  
E a águia passava
Lá em cima? Passava ...
E o mocho no meio
Do bosque escondido entre
As folhas piava … piava só para te disser
Que lá estava … 




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