Um laranjal, um poço
Uma casa no meio das árvores
Roupa estendida nas cordas
Uma casota de um cão.
Mas o poeta não está dentro desse edifício
Está mais acima
Noutra casa dissimulada
Entre as árvores, as penas e a auto recriação.
No meio das flores amarelo esverdeadas.
Chama - lhe o seu covil.
Poucos sabem que ele está lá
Poucos sabem que este existe
Mas consegue - se ver o poeta ...
Por uma fresta numa janela
Escreve rompendo o papel
Com a sua caneta.
Este prefere a cor azul à preta.
Só porque o azul é a cor dos poetas.
E lá estão no papel eletrónico à sua frente
As suas vivências, frustrações, ausências.
A sua vontade que se recusa a submeter - se a ditames
Que não os seus.
Ninguém consegue impedi - lo de sonhar
Porque é o seu alimento natural
E precisa tanto dele como do ar para respirar...
Uma pomba esvoaçou e poisou num poste
O céu azul continua belo
Uma criança lambuçou - se toda
Com um gelado de chocolate e caramelo
Mas está feliz.
O que haverá para lá do horizonte poético
Já conquistado por outros?
Outros horizontes,
À espera para serem decifrados.
Colocamos o pé na rua
Ouvem - se vozes, latidos de cães, pássaros aflitos
Ecoando no espaço com os seus gritos
Sorrisos das crianças,
Que nos dão esperança de dias melhores
Será que elas se riem para convencerem
Os pais que apesar de tudo vale a pena lutar
E que tudo vai ficar bem?
Ou só se riem porque são crianças...
Lá estamos nós na estrada a entrar para o carro
A ser observados, lidos, verificados
É bom não destoar dos outros
Mas o resto do tempo é nosso.
Entre muros,
Podemos errar
Escrever, decifrar o livro que estamos a ler e cantar
Levar algum tempo
Para acertar no que estamos a fazer
Rir, escutar, falar, o que realmente pensamos
Ver filmes cómicos, de aventuras, de ficção, ver séries e concursos
Que pena passarem tão rápido ...
Mas quando saímos para a rua
Lá estão os mesmo de sempre
A tentar perceber quem somos
Para onde vamos?
Se não destoarmos
Se calhar é melhor para todos
Não damos pistas para nos questionarem
Assim somos só mais um
Que passamos por ali
Rumo ao nosso trabalho.
Mas no nosso cantinho
Todo o tempo é nosso
É ai que vamos percebendo
Qual o nosso caminho
E construindo a nossa estrada
Onde passamos alegremente ...
De mão dada ou sós,
E uma armadura vai crescendo
E o nosso sorriso vai sorrindo
A cada conquista...
Forma - se um exoesqueleto
No nosso corpo, visível só para nós...
Que nos protege da mal discência
E interpretações erróneas de quem somos,
E de olhares interrogativos
Ninguém devia criticar alguém sem o conhecer.
E quando temos um contratempo
Que nos desmotiva,
Não significa que temos uma má existência
Tivemos só um mau dia.
Nunca podemos esquecer que depois
Da tempestade vem a bonança
E a nossa vida flui e avança.