quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Um tigre na esplanada

 Um café no centro de uma cidade ao pé de uma escola. O estabelecimento é de tamanho médio com uma esplanada, salpicada de mesas e cadeiras de cor branca, no meio de vários chapéus de Sol. Lá dentro mais mesas e cadeiras da cor da madeira dão um aspeto majestoso áquele café. O balcão de madeira de mogno com os seus bolos, sumos e salgados perfilhados dão fome só de olhar para eles. Dentro do balcão uma máquina de tirar café, outra de lavar loiça e outras máquinas. No teto várias luzes iluminam o espaço e uma ventoinha mantém a temperatura amena. Numa das paredes bem no centro uma imitação de um mapa mundo do século XVI faz uma pequena homenagem ao antigo Império português. Tem quatro empregados todos com cerca de quarenta anos que estão sempre atarefados com algo para fazer, ou estão a tirar cafés ou a atender clientes de bandeja na mão ou a lavar loiça. Dentro do café um tigre está sentado numa mesa ao pé da máquina de gelados, do outro lado, ficam as casa de banho. É um animal de meia idade na sua juventude gostava de se sentar na esplanada, para todos o verem com as suas lindas cores, branca, cor de laranja, riscas pretas e longos bigodes, mas agora prefere o recato de uma mesa mais discreta.  Daquele lugar o Pantera tigris consegue observar os empregados e quem entra e quem sai do estabelecimento. É um observador nato que gosta de olhar para as pessoas para ver como estão vestidas, ouvir as suas conversas e tentar perceber quem são. Uma senhora com cerca de oitenta anos é uma das primeiras a entrar no estabelecimento dantes sentava-se sozinha mas neste momento três outras senhoras sentam-se ao pé dela, porque perceberam que estava sempre só, outra mulher de cerca de sessenta anos senta-se na companhia de uma prima gosta de ficar do lado direito lá ao fundo, os seus três filhos são a sua preocupação por não quererem estudar. E a senhora Eduarda não sabe bem o que será deles no futuro sem estudos. A meio da manhã um velhote já nos setenta anos, sempre de fato e gravata, óculos, chapéu e jornal debaixo do braço, entra no estabelecimento e sentasse numa mesa ao pé da janela, de vez enquanto gosta de olhar lá para fora.  É o Senhor Silva como lê o jornal está sempre bem informado e é um crítico do sistema por considerar que os portugueses podiam estar muito melhor do que estão. Na hora do almoço é quando o café fatura mais as mesas estão cheias e mais houvesse mais clientes teriam. O tigre preocupa-se vê e suspira, porque percebe que os portugueses cada fez tem menos dinheiro e dividem uma dose para três e depois ainda vão ter de trabalhar a tarde toda só com meio estômago cheio, o que é custoso e não faz nada bem à saúde. Alguns trazem sandes de casa para comer a meio da tarde ou uma peça de fruta.

«Melhores dias virão o país é pobre.» Dizem os clientes. 

A meio da tarde surge uma mãe e quatro filhos três meninos e uma menina estão bem vestidos, comem com os olhos e nunca estão satisfeitos, de vez enquanto fazem birras mas o tigre lançam-lhes um olhar duro e eles acalmam, permitindo à sua progenitora descansar um pouco. Já rosnou uma vez a um menino que levantou a mão para a sua mãe o garoto estremeceu todo e daí por diante portou-se sempre bem pelo menos no café. Os empregados estão sempre atarefados mas não se queixam do trabalho, sempre bem vestidos com as suas calças pretas, camisa branca e na gola um papillon da mesma cor, parecem deslizar no espaço enquanto servem os clientes, nota-se que gostam do que fazem. O Sr Manuel de bigode farfalhudo e cabelo curto, é o dono do estabelecimento queixa-se que tem de pagar muitos impostos mas vai levando a vida para a frente

«É um dia de cada vez» Afirma.

O tigre gosta de refletir sobre a sociedade e aquele café é um pequeno micro cosmos do que acontece no país onde vive. As preocupações dos progenitores com os seus filhos, a solidão dos idosos, a má educação dos mais novos,  o custo de vida cada vez mais alto e os salários com aumentos irrisórios que nem sequer por vezes compensam a inflação. Mas como é um optimista pensa que um dia as coisas vão mudar para melhor. O poderoso animal ao entardecer quando o Sol já quer ir dormir levanta-se e vai para casa, gosta de andar ainda com alguma luz embora veja bem de noite. A maior parte das pessoas já estão nas suas habitações a descansar,  têm as luzes acesas da sala de jantar as outras estão apagadas para poupar na electricidade. O tigre gosta de dormir lá em cima nas árvores enquanto os seus olhos percorrem a noite escura, para adormecer conta as estrelas e observa o horizonte. Só não gosta da chuva quando chove vai se abrigar numa escola abandonada mas ainda em bom estado e fica a imaginar as crianças que costumavam aprender a ler e a escrever dentro das salas e a brincar no pátio. Nas paredes ainda se vêem os desenhos dos pequeninos a lápis de cor. Por vezes consegue ouvir os seus risos. Aonde estarão? O mais certo é metade ou mais terem emigrado com os seus país mas concerteza que um dia voltarão ao país que os viu nascer para viverem e properar, quando as mentalidades tiverem mudado e evoluido e os portugueses perceberem que a sociedade é feita por todos nós e que as pessoas recebem aquilo que dão, se todos respeitarem os seus direitos e deveres vão de certeza descobrir um país muito melhor.  O pantera tigris lembe o seu corpo e enrola a cauda sobre si mesmo deitado sobre uma das mesas da antiga escola. Por vezes ainda fica a pensar no café e nas pessoas que vê todos os dias e sente-se feliz por fazer parte da vida daqueles cidadãos. Depois adormece no meio do silêncio apenas interrompido com o som dos grilos ecoando lá fora.  


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